Onde Borges Tudo Vê – Taciano
Valério
Ficção, Preto & Branco, Digital, 77min, 2012, PB, Brasil
.
Borges do título é um Hamster. Bicho de estimação
do personagem principal Napoleão (Everaldo Pontes), que é cego. Borges recebeu
este nome em homenagem de seu dono ao escritor argentino Jorge Luis Borges de
quem é grande admirador. O hamster é também um aporte de memória ao personagem
Napoleão que diz poder se lembrar de toda obra de seu autor favorito enquanto
Borges, seu rato, ainda estiver vivo. Napoleão não sai de casa. Todo o contato
do personagem com o exterior acontece por meio das personagens Romão (Fabiano
Raposo) e Yara (Verônica Cavalcanti). Romão é uma espécie de muleta para
Napoleão. Ele realiza todas as atividades externas que Napoleão já não mais
realiza. Yara é a empregada doméstica. A forma como estas personagens estão
ligadas e tudo que esta ligação implica é o fio condutor da narrativa de Onde Bog Tudo Vê.
Romão é apresentado no filme como um rapaz já sem
muitas perspectivas tentando se adaptar ao que é enquanto trabalha nas pequenas
possibilidades de mudança que lhe restaram. Yara está acomodada. Presa em uma
situação de submissão a Romão, a personagem simplesmente aceita sua condição.
Nenhum dos dois personagens se transformam em essência. Seguem apenas agarrados
aos vícios e prazeres fáceis da vida. Assim como Napoleão, que já se encontra
em um estado de pura soberba e orgulho, tendo a exibição de seu conhecimento e
das posses como a maior arma para atingir os desconhecidos com quem convive.
O diretor Taciano Valério expõe todos os embaraços destas
relações complexas como um retrato irônico, sem cores e sem floreios, faces do
ser humano que, incapaz de mover-se da inércia, caminha sempre para os mesmos
fins através de alternativas que apenas reforçam a incapacidade de
transformação. Na cena em que Napoleão e Yara embarcam para enterrar o Hamster
o diálogo dos personagens é sintomático. O dono do rato recusa-se a repor o seu animal
de estimação afirmando que o ato resultaria no mesmo fim e para ele não faria
sentido.
O roteiro e a linguagem utilizada por Valério criam
certa organicidade ao filme. Por exemplo, esta reflexão sobre os ciclos está
presente nos enquadramentos da gaiola do Borges, nas subjetivas do animal que
acontecem em círculos da câmera, e na “ciranda” dos técnicos do filme ao final.
Apesar de e, sobretudo, por toda a precisão de sua
narrativa e coerência de escolhas estéticas, Taciano Valério convida o
espectador a adentrar no íntimo de suas personagens de forma aberta. Um convite
à construção conjunta, a um desvendar de uma narrativa que já encontra um fim estabelecido.
Um ciclo a se completar. Uma ciranda que se mantêm na renovação de suas peças,
na circularidade dos acasos, dos encontros. O que é simplesmente esplêndido em
todo o filme.
Onde Borges
Tudo Vê pertence a uma leva de filmes produzidos à margem dos grandes
centros de produção cinematográficos no Brasil. Ao lado de Febre do Rato, de Cláudio de Assis, filme com o qual mantém
proximidades estéticas e regionais, o filme do diretor paraibano propõe ao
cenário de produção atual uma ficção de paladar difícil, com uma reflexão mais
severa da sociedade, algo que pouco se vê nos filões da produção brasileira
atual de grandes bilheterias.
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Elenco:
Everaldo Pontes, Veronica Cavalcanti, Fabiano Raposo, Paulo Philippe, Aluizio Guimarães.
*Assistido na 16ª Mostra de Cinema de Tiradentes – janeiro/2013.
1. Sinopse disponível no site: http://www.mostratiradentes.com.br
Sinopse: ¹
Napoleão (Everaldo Pontes) é um
cego dono de um hamster (Borges) e amante da obra de um grande escritor
argentino, Jorge Luis Borges. Diz guardar uma obra escrita pelo argentino que
ninguém no mundo possui...
Elenco:
Everaldo Pontes, Veronica Cavalcanti, Fabiano Raposo, Paulo Philippe, Aluizio Guimarães.
*Assistido na 16ª Mostra de Cinema de Tiradentes – janeiro/2013.
1. Sinopse disponível no site: http://www.mostratiradentes.com.br

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