segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Alguns Parágrafos Sobre...



Onde Borges Tudo Vê – Taciano Valério
Ficção, Preto & Branco, Digital, 77min, 2012, PB, Brasil

 
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 Borges do título é um Hamster. Bicho de estimação do personagem principal Napoleão (Everaldo Pontes), que é cego. Borges recebeu este nome em homenagem de seu dono ao escritor argentino Jorge Luis Borges de quem é grande admirador. O hamster é também um aporte de memória ao personagem Napoleão que diz poder se lembrar de toda obra de seu autor favorito enquanto Borges, seu rato, ainda estiver vivo. Napoleão não sai de casa. Todo o contato do personagem com o exterior acontece por meio das personagens Romão (Fabiano Raposo) e Yara (Verônica Cavalcanti). Romão é uma espécie de muleta para Napoleão. Ele realiza todas as atividades externas que Napoleão já não mais realiza. Yara é a empregada doméstica. A forma como estas personagens estão ligadas e tudo que esta ligação implica é o fio condutor da narrativa de Onde Bog Tudo Vê.
Romão é apresentado no filme como um rapaz já sem muitas perspectivas tentando se adaptar ao que é enquanto trabalha nas pequenas possibilidades de mudança que lhe restaram. Yara está acomodada. Presa em uma situação de submissão a Romão, a personagem simplesmente aceita sua condição. Nenhum dos dois personagens se transformam em essência. Seguem apenas agarrados aos vícios e prazeres fáceis da vida. Assim como Napoleão, que já se encontra em um estado de pura soberba e orgulho, tendo a exibição de seu conhecimento e das posses como a maior arma para atingir os desconhecidos com quem convive.
O diretor Taciano Valério expõe todos os embaraços destas relações complexas como um retrato irônico, sem cores e sem floreios, faces do ser humano que, incapaz de mover-se da inércia, caminha sempre para os mesmos fins através de alternativas que apenas reforçam a incapacidade de transformação. Na cena em que Napoleão e Yara embarcam para enterrar o Hamster o diálogo dos personagens é sintomático.  O dono do rato recusa-se a repor o seu animal de estimação afirmando que o ato resultaria no mesmo fim e para ele não faria sentido.
O roteiro e a linguagem utilizada por Valério criam certa organicidade ao filme. Por exemplo, esta reflexão sobre os ciclos está presente nos enquadramentos da gaiola do Borges, nas subjetivas do animal que acontecem em círculos da câmera, e na “ciranda” dos técnicos do filme ao final.
Apesar de e, sobretudo, por toda a precisão de sua narrativa e coerência de escolhas estéticas, Taciano Valério convida o espectador a adentrar no íntimo de suas personagens de forma aberta. Um convite à construção conjunta, a um desvendar de uma narrativa que já encontra um fim estabelecido. Um ciclo a se completar. Uma ciranda que se mantêm na renovação de suas peças, na circularidade dos acasos, dos encontros. O que é simplesmente esplêndido em todo o filme.
Onde Borges Tudo Vê pertence a uma leva de filmes produzidos à margem dos grandes centros de produção cinematográficos no Brasil. Ao lado de Febre do Rato, de Cláudio de Assis, filme com o qual mantém proximidades estéticas e regionais, o filme do diretor paraibano propõe ao cenário de produção atual uma ficção de paladar difícil, com uma reflexão mais severa da sociedade, algo que pouco se vê nos filões da produção brasileira atual de grandes bilheterias.

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Sinopse: ¹

Napoleão (Everaldo Pontes) é um cego dono de um hamster (Borges) e amante da obra de um grande escritor argentino, Jorge Luis Borges. Diz guardar uma obra escrita pelo argentino que ninguém no mundo possui...

Elenco:
Everaldo Pontes, Veronica Cavalcanti, Fabiano Raposo, Paulo Philippe, Aluizio Guimarães.

*Assistido na 16ª Mostra de Cinema de Tiradentes – janeiro/2013.


1. Sinopse disponível no site: http://www.mostratiradentes.com.br

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