A MEMÓRIA QUE ME CONTAM
(Lúcia Murat, Ficção,Cor, 35mm, 95min, RJ, 2012)
Ao ouvir o titulo desse filme você pode criar uma montanha de suposições: um grupo de velhinhos fofos que contam suas vidas aos netos; pessoas a beira da morte que escrevem suas histórias; egocêntricos que acham que todo mundo está interessado nas suas vidas; e por ai vai. Na realidade a memória do titulo se liga muito mais a uma interiorização que fazemos, despertada por determinado acontecimento ou pessoa, que por qualquer outro aspecto.
Lúcia Murat busca abordar a ditadura de forma incomum neste longa (se compararmos a todos os outros milhões de filmes do tema que são produzidos, num paralelo com os filmes hollywoodianos da Guerra do Vietnã). O filme, baseado em acontecimentos reais, trata de um grupo de amigos que viveu e lutou contra a ditadura e está prestes a perder Ana (Simone Spoladore) que está internada inconsciente em um hospital devido a vários problemas de saúde e foi quem viveu mais intensamente os fatos do período e que mantinha acesas as lembranças daquele período.
Frente a este acontecimento o grupo de amigos diretamente ligado a Ana desde a juventude e até mesmo as novas gerações com que a personagem teve contato, criam uma rede de relações e sentimentos frente a esta situação. Interessante observar como a reação de cada um deles é diferenciada, como representações alegóricas dos turbilhões de sentimentos que podemos ter frente a questões que perpassam a vida e/ou a morte. A relação entre Irene (Irene Ravache), seu filho Eduardo (Miguel Thiré) e Ana é apontada majoritariamente na trama. As questões dessa mãe revolucionária, que acredita já ter feito tudo o que poderia fazer, frente às questões do filho homossexual, que sempre esteve livre de tabus por influência direta da protagonista onipresente Ana.
(Só para não passar batido: a amizade e amor existentes entre Eduardo, Gabriel (Patrick Sampaio) e Chloé (Naruna Kaplan de Macedo) valem a reflexão de como aquele grupo de amigos revolucionários não se extinguiu completamente. Permanecem vivos mesmo nessa nova geração, pela leve e romantizada conexão existente desses três personagens).
O roteiro apresenta uma clara linearidade narrativa, que chega a ser didática (impossível se perder na história!). Os fatos são contados/comentados entre os personagens, ou pela presença de Ana, e logo em seguida demonstrados (como podemos ver claramente na cena em que Irene e Eduardo conversam sobre sexualidade, para logo em seguida passarmos a cena romântica de Eduardo e Gabriel). Por mais que este aspecto pareça negativo, não é. A linearidade flui de forma leve e poetizada, contribuindo para a identificação do público com o longa, seus personagens e, principalmente, com os fortes sentimentos envolvidos.
A Memória que Me Contam trata, sobretudo, de amizade. Como as relações e as lembranças sempre estarão presentes, não importa o que façamos, mesmo que devemos seguir adiante. “Nossa, mas estava crente de ser um filme sobre a ditadura! E agora produção?” Não se desesperem! A ditadura está presente em todo o filme, mas de forma não tradicional e até mesmo mais vivaz, já que ela é a justificativa para a união e vivência daqueles personagens. Ou seja, vale a pedida!
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SINOPSE:
Um drama irônico sobre utopias derrotadas, terrorismo, comportamento sexual e a construção de um mito. Um grupo de amigos, que resistiram à ditadura militar, e seus filhos vão enfrentar o conflito entre o cotidiano de hoje e o passado quando um deles está morrendo.
ELENCO:
Irene Ravache, Simone Spoladore, Franco Nero, Clarisse Abujamra, Hamilton Vaz, Pereira, Mário José Paz, Miguel Thiré, Patrick Sampaio, Juliana Helcer, Zécarlos Machado, Ricardo Dantas, Pablo Uranga, Hugo Gonçalves, Otávio Augusto, Elaine Vilela, Pablo Sanábio, Nathália Murat, Oswaldo Mendes, Valéria Monteiro, Fernando Bezerra, Natália Lorda, Ovidici Puscalau, Naruna Kaplan de Macedo, Eduardo Estrela, Rodrigo Oliveira, Bianca Joy, Eduardo Cravo, Babu Santana
TRAILER (Promo):
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