terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Alguns Parágrafos Sobre...


DOCE AMIANTO
(De Guto Parente e Uirá dos Reis. Ficção, Cor, 70min, 2013, CE, Brasil)

Qual é a intensidade do amor e quais são os modos de lidar com o poder avassalador de uma rejeição? Aos pés do amado, a dor da separação se transborda na lama e lágrimas de um lugar transformado através do exagero e demarca desde o início a retomada de um Guto Parente atento à construção de visual colorido saturado, manipulado e visceral. Usa-se dos artifícios do grotesco, para propor uma viagem aos sentimentos que, por mais adultos e viscerais, são construídos socialmente através de óticas infantilizadas e alegóricas.

Amianto é a síntese de um sentimentalismo que transcende as barreiras de gênero. É sempre uma relação dicotômica, como símbolo das contradições. O humor é uma válvula de enredo para lidar com a dor da rejeição. Assim como a erudição de um texto poético convive com a figura vulgar de uma fada Grunch (ou uma amiga morta, a única companheira inventada). Contudo, nesse amalgama de divergências há um retrato bastante universal sobre o sentimento amor.

A personagem se entrega de forma ingênua, pura, aos seus sentimentos. Ela sofre, entre vestidos e perucas exageradas. Ela sofre em um quarto cheio de objetos e peças de arte. Ela sofre no vermelho vibrante... É uma brincadeira do visual, que parece transcender (apesar de transitar) por alguns postulados de um cinema fantástico ao não ironizar de maneira esdrúxula os sentimentos, mas sim trabalhar com o potencial do patético que, neste caso, é a entrega total ao sentimento do amor.

Não há muito espaço para o cotidiano cinza de uma cidade. Até mesmo quando Amianto deixa o seu quarto e se depara com as realidades urbanas noturnas, o que vale é o modo como a personagem busca lidar com a perda. E assim, um encontro casual na balada, se transforma num devaneio principesco (bem semelhante a uma princesa da Disney, por exemplo).


Mas toda a estética do exagero ou bizarro se desmancha com a personagem ‘desmontada’ e escancara uma solidão nua, fria, melancólica. Incapaz de se esconder mesmo nos artifícios de uma mente encantadoramente romântica. Contudo, longe de ser moralizante. Creio ter sido este mais um feliz artifício fílmico para nos incitar a perceber as diversas faces da construção do sentimento do amor e suas reverberações.

Por outro lado, a esperança da redenção através da volta do amado remete a uma reviravolta bastante interessante ao propor a quebra de uma possível leitura fetichista do tema. Do mesmo modo que dilui ou reinterpreta a alusão estética Kitsch, no embalo do sexo, onde corpos nus se imbricam em tempo suficiente para nos questionar a transitoriedade e fronteiras entre o real e a fuga dos sentimentos.

Enfim, a ideia de ‘brincar’ com o gênero de Amianto é uma chave interessante para se pensar o sentimento do amor. Remete-nos aos deuses gregos e as inúmeras narrativas sobre o tema. Assim como ao conceito freudiano das potencialidades femininas e masculinas que habitam um mesmo indivíduo e vão se condicionando frente às especificidades de cada conjuntura histórico-social. Acho resumido demais dizer que o filme é sobre travesti ou o mundo gay, pois se trata muito mais de um retrato da condição humana frente ao outro e a si mesmo: Um retrato das desilusões amorosas, redenção e solidão.

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SINOPSE
Amianto vive isolada num mundo de fantasia habitado por seus delírios de incontida esperança, onde sua ingenuidade e sua melancolia convivem de mãos dadas. Após sentir-se abandonada por seu amor (O Rapaz), Amianto encontra abrigo na presença de sua amiga morta, Blanche, que a protegerá contra suas dores – ao menos até onde possa. Seu universo interior choca-se com a realidade de um mundo que não a aceita, um mundo ao qual ela não pertence e invariavelmente ela torna a debruçar-se em seus delírios jocosos, misturando realidade e fantasia. Com a ajuda de sua Fada Madrinha, Amianto recolhe forças para continuar existindo na esperança de ser feliz algum dia.

ELENCO
Deynne Augusto, Uirá dos Reis, Dario Oliveira, Rodrigo Fernandes, Rafaela Diogenes, Reginaldo Dias 

EMPRESA PRODUTORA
Alumbramento

TRAILER





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