terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Alguns Paragrafos Sobre...


ELES VOLTAM
(De Marcelo Lordello. Ficção, cor, 105min, 2012, PE, Brasil)

  

Os ritos de passagem entre as estações da vida são marcadas por experiências traumáticas em múltiplos aspectos. As transições pautam, por exemplo, não apenas a construção de lugares simbólicos que cada ser ocupará no mundo, demarcam também os elementos comportamentais capazes de se inter-relacionar frente às multiplicidades socioculturais. E, assim, em uma espécie de situação limite, somos convidados a percorrer junto a Cris um árido cenário apresentado em planos abertos, de uma fotografia excepcional.

A situação de ser deixada na estrada junto ao seu irmão mais velho é a premissa que nos apresenta uma delicada relação entre ambos. Delicada, pois, o silêncio e a falta de experiência de lidar com os próprios sentimentos marcam uma desventura com traços de Road Movie, mas de um caminho que deve ser percorrido a pé, de modo moroso e, até certo ponto, contemplativo. Desse modo, uma segunda camada interpretativa se apresenta quando a falta de compreensão do outro é elevada a outro patamar de intersubjetividade: é proposta uma primeira relação com a fragilidade de lidar consigo mesmo.

O irmão decide ir até o posto mais perto, e pede para a irmã permanecer no local onde foram deixados, na esperança de que seus pais pudessem voltar. Acompanhar a espera de Cris, uma garota de 12 anos, é atemorizante, o que faz com que o expectador crie de imediato grande empatia pela protagonista. Alias, vale a nota, a nossa protagonista é grandiosamente interpretada pela atriz mirim Maria Luiza Tavares.

Cris amadurece no caminho, mas não é através de grandes acontecimentos ou reviravoltas narrativas. Ela teve a sorte de encontrar pelo caminho pessoas que a ajudou e tornou o percurso um pouco mais ameno. E entre camadas fílmicas que se desenrolam em ritmos variados, os planos longos dão espaço para uma história aberta, onde as sutilezas dos gestos tornam a dinâmica do filme ainda mais intimista e permite que o espectador ‘viaje’ com ou como a protagonista. E em cada encontro de Cris com as pessoas que a auxiliam na jornada, nos deparamos também com um olhar orgânico e pouco romantizado sobre vários aspectos políticos sobre as diferenças sociais.

Mas, se por um lado, situa-se o silêncio e a falta de experiência em lidar com os sentimentos como elementos chaves deste filme, o motor cartesiano que move os personagens a certo reencontro é o amor. Um amor que sufoca para proteger, como o abraço de uma avó; que se fecha em convicções estagnadas, como a figura de um avô; que perdoa, como um vídeo que registrou a estrada que separou os irmãos, mas que agora serve de elemento de expurgação de possível culpa, mesmo que no silêncio das arestas da vida.


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SINOPSE
Cris, de 12 anos, e seu irmão mais velho são deixados na beira da estrada por seus pais. Em pouco tempo percebem que o castigo vem a se tornar um desafio ainda maior. O filme acompanha Cris em sua jornada de retorno ao lar. Um caminho feito de encontros, em que realidades distintas serão seus guias. Uma fábula de tons realistas sobre as vivências que farão Cris se revisitar

ELENCO
Maria Luiza Tavares, Georgio Kokosi, Elayne de Moura, Irma Brown 

EMPRESA PRODUTORA
Trincheira

TRAILER




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